Marcha em equino

As alterações na marcha são motivo frequente de preocupação entre pais e cuidadores, especialmente quando a criança passa a andar de forma diferente do esperado para a idade. Entre essas alterações, a marcha em equino, popularmente conhecida como andar na ponta dos pés, é uma das mais comuns na infância.
A marcha em equino caracteriza-se pela ausência do contato do calcanhar com o chão durante a caminhada. Em crianças pequenas, esse padrão pode fazer parte do desenvolvimento motor normal. No entanto, quando persiste após os 2 anos de idade, por mais de alguns meses e na maior parte do tempo, torna-se necessário investigar.
Quando não há associação com doenças neurológicas, ortopédicas ou síndromes específicas, o quadro é denominado Marcha em Equino Idiopática.

O que causa a marcha em equino idiopática?

A marcha em equino idiopática ocorre em crianças previamente saudáveis, sem diagnóstico neurológico ou ortopédico associado. A causa exata ainda não é totalmente compreendida, mas acredita-se em uma combinação de fatores, como:

• Predisposição genética
• Alterações no controle motor e sensorial
• Tendência ao encurtamento da musculatura da panturrilha

É importante destacar que, antes de classificar o quadro como idiopático, o ortopedista pediátrico deve descartar causas neurológicas, como paralisia cerebral, transtornos neuromusculares ou distúrbios do desenvolvimento.

Quando devemos nos preocupar?
Andar ocasionalmente na ponta dos pés até os 2 anos de idade pode ser considerado normal. A avaliação especializada é indicada quando:

• O padrão persiste após os 2 anos
• A criança anda na ponta dos pés por mais de 50% do tempo
• Há dificuldade ou incapacidade de apoiar o calcanhar no chão
• Surgem dores, quedas frequentes ou cansaço ao caminhar

O acompanhamento precoce permite identificar se o quadro é leve, moderado ou mais avançado.

A marcha em equino idiopática apresenta diferentes graus de gravidade, que variam desde crianças que ocasionalmente andam na ponta dos pés, mas conseguem apoiar o calcanhar quando solicitadas até casos mais graves, em que a criança não consegue, em nenhuma situação, tocar o calcanhar no chão

Um dos pontos mais importantes da avaliação é a capacidade de dorsiflexão do tornozelo, ou seja, de elevar o pé até a posição neutra. A limitação desse movimento indica encurtamento progressivo da musculatura da panturrilha.

Alguns achados clínicos sugerem maior gravidade e risco de progressão:

• Incapacidade de apoiar o calcanhar no chão
• Calosidades na parte anterior da planta do pé
• Calcanhar fino, com pele clara e pouco usada
• Panturrilha encurtada, alta e mais volumosa
• Alargamento da parte anterior do pé
• Dificuldade de levar o tornozelo à posição neutra

Esses sinais indicam possível contratura fixa do tendão de Aquiles, que pode limitar as opções de tratamento conservador.

Como é o tratamento?

O tratamento da marcha em equino idiopática é individualizado, levando em conta a idade da criança, o grau de encurtamento muscular e o impacto funcional da marcha.
Nos casos leves e sem sinais de gravidade, a observação clínica pode ser suficiente, já que uma parcela significativa das crianças apresenta resolução espontânea.

Outras opções terapêuticas incluem:

• Fisioterapia
• Terapia ocupacional
• Uso de palmilhas ou órteses suropodálicas (AFOs)
• Gessos seriados
• Aplicação de toxina botulínica

A cirurgia é indicada principalmente quando há contratura fixa do tendão de Aquiles, impedindo o apoio do calcanhar, e quando os tratamentos conservadores não apresentam bons resultados.

E quando a cirurgia é necessária?

Nos casos de encurtamento mais grave da musculatura da panturrilha, o tratamento cirúrgico visa o alongamento controlado do tendão de Aquiles, permitindo a recuperação do padrão de marcha. A técnica utilizada depende do grau de encurtamento e das características individuais do paciente.

A recuperação geralmente envolve:
• Imobilização com gesso por cerca de 4 a 6 semanas
• Marcha permitida durante esse período, conforme orientação médica
• Uso posterior de órteses por alguns meses
• Fisioterapia para reeducação da marcha e alongamento muscular

Por que tratar é importante?
Quando não tratada adequadamente, a marcha em equino pode persistir até a vida adulta, favorecendo dores nos pés, tornozelos e joelhos, além de alterações posturais e limitações funcionais.

A boa notícia é que, com avaliação especializada e acompanhamento adequado, a maioria das crianças pode alcançar uma marcha funcional, estável e sem dor.
Se você percebe que seu filho anda frequentemente na ponta dos pés ou apresenta dificuldade para apoiar os calcanhares no chão, uma avaliação precoce faz toda a diferença.